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Publicado em 19/11/2016 às 00:00:00 - Atualizado em 19/11/2016 ás 00:00:00

 

Aliado de Ortega, morto continua presidindo o Congresso


O nicaraguense René Nuñez morreu em setembro, mas continuará no cargo até janeiro

 

O atual presidente do Parlamento da Nicarágua, René Núñez, morreu no dia 10 de setembro – e mesmo assim não abandonou seu posto.

 

Isso porque a Assembleia Nacional da Nicarágua declarou que o falecido vai continuar no cargo até o fim do mandato, em janeiro de 2017. A proposta foi aprovada por 83 dos 92 deputados, e não houve nenhum voto contra.

 

Núñez teve um papel central na aprovação da reforma constitucional que permitiu a Ortega se reeleger indefinidamente para o cargo de presidente. No dia 6 de novembro, Ortega foi reeleito pela terceira vez e assumirá o próximo mandato no ano que vem, em janeiro.

 

Além de homenagear o antigo aliado, a extensão do mandato de Núnez também teve uma razão prática. Ortega provavelmente queria alguém de confiança ocupando o cargo até sua reeleição, mas não enxergava no Parlamento ninguém suficientemente leal.

 

“Ortega não quer que ninguém ocupe esse posto. Ele não considera que exista alguém em quem confie o suficiente para esta posição até o novo governo”, diz o cientista político nicaraguense José Antônio Peraza.

 

O fato de um morto manter o cargo desperta referências com o realismo mágico da América Latina. “É como um conto de Gabriel García Márquez, mas não estou surpreso”, diz Peraza. “É uma coisa exótica, mas que obedece à esquizofrenia de nossa política”.

 

Peraza acrescenta que, na Frente Sandinista nicaraguense, formado por guerrilheiros de esquerda, havia um culto forte à morte a aos falecidos. Durante a Revolução Sandinista nos anos 1970, os homens armados não prestavam culto às suas figuras em praça pública. O que eles realmente faziam era nomear aqueles “caídos na luta”. Em seu livro Adeus, Amigoso nicaraguense Sérgio Ramírez escreveu que revolução se nutria de “uma filosofia que obtinha sua energia da morte” mas que “começou a perde-la por excesso de morte”. 

 

Diz Peraza: “essa concepção está de acordo com a transformação que teve o conceito de revolução depois da Revolução Francesa, pois a partir dela que se inicia a justificação da violência como método para fazer a revolução. A criatividade revolucionária se mede então por meio da violência e dos mortos: quanto mais, melhor”.

 

Ortega iniciará o terceiro mandato em janeiro sob alegações de ilegitimidade, devido à falta de transparência no processo eleitoral (o governo não permitiu que estrangeiros supervisionassem as eleições) e à alta abstenção registrada na votação. A oposição calcula que só 30% votaram.

 

O fraco engajamento eleitoral da população foi um ato de repúdio a Ortega, que destituiu 28 deputados opositores no Congresso. René Nuñez não levantou um único dedo para protestar contra os últimos atos autoritários de Ortega. Ele nunca fez isso. Se tivesse vivo, também não o faria.

 

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